quinta-feira, 31 de julho de 2014

ILPF + S!



Por Bruno Toribio Xavier
brunotoribio@gmail.com


        Surge mais uma tecnologia que promete potencializar a pecuária leiteira, a Integração Lavoura Pecuária Floresta. De fato é mesmo uma tecnologia promissora, que tem devolvido ao produtor rural o direito de sonhar com uma produção bem mais remunerada, uma vez que, com a devida orientação técnica tem-se a possibilidade de organizar sua propriedade e suas operações agrícolas, visando um lucro maior e por que não dizer a conservação dos recursos naturais. Com a participação da Embrapa Gado de Leite, estes produtores rurais estão cada vez mais imbuindo-se da idéia que precisam tornam-se Empresários do Setor Agropecuário.

        Tudo isso estaria perfeito se a base desta tecnologia não preconizasse em demasia, na nossa opinião, uma elevada dependência de insumos externos a propriedade, a saber: herbicidas, adubos químicos e mudas de espécies exóticas (na maioria dos casos eucalipto), sendo estas últimas componentes do F da sigla ILPF, ou seja, floresta. Não cabe aqui a crítica pela crítica ao eucalipto, mas sim a oportunidade de usarmos outras espécies, apenas isso.

         O aumento da produtividade das propriedades tem sido observado com a adoção desta tecnologia, mas poderia ser também um aumento na sustentabilidade desses agroecossistemas. A substituição dos herbicidas ou a sua correta utilização para o manejo das plantas espontâneas, o cultivo de espécies nativas em conjunto com o eucalipto e a adoção da homeopatia para controle dos carrapatos nos animais são algumas das sugestões que incorporariam o S de sustentabilidade na sigla desta tecnologia. 



     Pensar em sustentabilidade no desenvolvimento das atividades agropecuárias é mais do que uma necessidade. Da forma atual, a ILPF não é uma tecnologia ruim, apenas, em nossa opinião, precisa ter incorporadas em suas práticas, formas de diversificar ainda mais a propriedade para alcançar a pretensa sustentabilidade. Saldo positivo mesmo só na proteção do recurso natural solo e quando os Empresários pensam na qualidade do leite ao substituir os antibióticos e carrapaticidas pelos preparados homeopáticos.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sistemas Agroflorestais, Agricultura diversa e desenvolvimento: conexões em busca de mais e melhores alimentos

Por Bruno Toribio Xavier, Engº Agrônomo
 brunotoribio@gmail.com

         Os Sistemas Agroflorestais (SAF´s) tem sua origem registrada nas antigas civilizações, principalmente entre os ameríndios, que praticavam e desenvolviam os SAF´s de maneira bastante empírica. Entretanto é interessante registrar que estes povos praticantes de SAF´s não exauriam os recursos naturais locais, apesar de trocarem periodicamente as áreas de cultivo. Esta troca era devido a sua característica nômade e também de sua consciência acerca da necessidade de recuperação de suas áreas de produção.

No Brasil, após o “descobrimento” houve mudanças nas formas de produzir alimentos e levando-se em consideração o aumento da população e criação de novos mercados consumidores, surgiram também problemas ambientais graves que tem ocupado grande parte do noticiário nos últimos anos. Resgatar as formas tradicionais de produzir alimentos é necessidade urgente, aliado a conservação e preservação, nos devidos casos, dos recursos naturais. Neste sentido, outras formas de agricultura precisam continuar emergindo e até mesmo (re)inventadas como, por exemplo, os SAF´s.
         De acordo com Dubois et al (1996), SAF´s se constituem em modalidade de uso da terra que segue o princípio de rendimento sustentável, permitindo aumentar a produtividade total, combinando simultaneamente ou de maneira escalonada, cultivos agrícolas, com florestas e/ou animais, aplicando as práticas de manejo compatíveis com os padrões culturais da população.

Desta forma, todas as etapas do estabelecimento de SAF´s devem ser pautadas pela estrita observação dos padrões culturais da população que será a principal peça na consecução e manutenção dos sistemas implantados. Com relação ao estabelecimento de SAF´s e suas etapas, quais sejam: escolha das espécies, preparo do solo, fertilização mineral e orgânica, tratos culturais e manejo, deverão levar em conta tanto as questões culturais como os aspectos técnicos, tentando sempre concilia-los contribuindo para a construção de sistemas de produção de alimentos que possam suprir as necessidades atuais e futuras da população sem deixar de lado os aspectos sociais, ambientais e econômicos.

Vale ressaltar que, de acordo com Nair (1990) os SAF´s podem ser classificados quanto a sua estrutura como: Agrissilviculturas (culturas agrícolas e árvores); Silvipastoril (pastagem e/ou animais e árvores) e Agrissilvipastoril (culturas agrícolas e/ou animais e árvores). Esta distinção faz-se necessária devido a complexidade de relações que podem ocorrer quando escolhemos deliberadamente por implantar cada um desses sistemas. O ideal em termos de sustentabilidade é inserir componentes vegetais e animais, buscando o fechamento do ciclo da produção de alimentos, bem como dos subprodutos gerados a partir do cultivo de plantas e da criação de animais.

O início de um SAF se dá com a escolha do local, pois a partir daí teremos facilitado a escolha das espécies, por exemplo. Escolher o local e realizar um planejamento é fundamental para o sucesso de um SAF, pois na maioria das vezes, por questões culturais, os agricultores acabam escolhendo as melhores áreas em termos de fertilidade e física do solo para os cultivos agrícolas em forma de monocultura. As razões para este fato são perfeitamente justificáveis, porém para esta forma de produzir alimentos, buscando a interação das culturas agrícolas, árvores e animais, esta escolha da área deverá obedecer novos critérios. É importante salientar que mesmo trabalhos desenvolvidos dentro das universidades e institutos de pesquisa sempre preconizaram a utilização das áreas com o maior número de limitações para a silvicultura. Certamente estas informações contribuíram para a construção deste cenário ainda dominante.

       A contemporaneidade nos obriga a pensar na diversidade e no contexto histórico e a agricultura não pode ficar fora desse processo. Diferentes formas de produção de alimentos encontram espaço nas sociedades e todas precisam cuidar dos recursos naturais, visto o crescente controle social, seja através de leis e até mesmo da conscientização da população. Os SAF´s, com a sua diversidade e organização contribuem muito para a oferta de mais e melhores alimentos.