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quinta-feira, 31 de março de 2016

EXCLUSIVO: Entrevista com o Prof. Francisco Roberto Caporal

As grandes transnacionais de agroquímicos já estão se dedicando à produção de insumos orgânicos, diz Caporal


Recife, 30/03/2016 - Em entrevista aos blogs Agricultura e Desenvolvimento e Verde Raro, o Professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco/UFRPE, Francisco Roberto Caporal, fala sobre a Agroecologia, legislação, políticas governamentais relacionadas à Agricultura Familiar e sobre os desafios e perspectivas da produção de alimentos livres de agrotóxicos.

O Professor Caporal é graduado em Agronomia, pela Universidade Federal de Santa Maria (1975), Mestre em Extensão Rural, pela Universidade Federal de Santa Maria (1991) e Doutor, pela Universidade de Córdoba - Espanha (1998), no curso de Doutorado em Agroecología, Campesinato e Historia, do Instituto de Sociología y Estudios Campesinos, tendo recebido nota máxima 'Sobresaliente cum laude". Atualmente, exerce as funções de Professor Adjunto da Universidade Federal Rural de Pernambuco, junto ao Departamento de Educação, onde coordena a Área IV, de Extensão Rural. É membro do Núcleo de Agroecologia e Campesinato- NAC/UFRPE, onde também é Coordenador. Já ocupou os cargos de Diretor Técnico da EMATER-RS, de 1999 a 2002, de Diretor Substituto do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural (DATER) e Coordenador Geral de Ater e Educação, no mesmo Departamento da Secretaria de Agricultura Familiar, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, de 2003 a 2010.



Ficha técnica:
Roteiro da entrevista: Bruno Toríbio Xavier (Engenheiro Agrônomo e Professor da Faculdade Mater Dei – Pato Branco/PR) e Renata Mayra de Castro (Pedagoga e Tutora do Curso de Pedagogia da UAB/UEMG – Belo Horizonte/MG)
Entrevistadora: Daniela Cano
Produção técnico-científica: Bruno Toríbio Xavier e Renata Mayra de Castro
Produção de áudio: Mateus Bernardo e Daniela Cano
Divulgação e Pós-Produção: Bruno Toríbio Xavier e Renata Mayra de Castro


Blogs AD e VR - Defina, para nossos leitores, a Agroecologia.

Francisco Roberto Caporal – A Agroecologia tem várias definições dependendo dos autores, dependendo do enfoque de cada autor, mas é uma ciência que tem por objetivo o estudo da sustentabilidade ou da insustentabilidade dos sistemas agroalimentares. É uma ciência transdisciplinar que procura incluir o conhecimento de diferentes campos de outras ciências, mas também procura incluir o conhecimento popular. O conhecimento dos agricultores e das agricultoras sobre os sistemas agroalimentares.

Blogs AD e VR - Como o senhor diferencia a agricultura convencional da orgânica e da agroecológica?

Francisco Roberto Caporal – Na verdade, o que nós temos na agricultura convencional é um modelo que foi implantado a partir dos anos sessenta, particularmente aqui no Brasil, que é o chamado Modelo da Revolução Verde. E essa agricultura convencional, desde a sua origem, se baseou nas sementes de altos resultados: as sementes que dependem de altas quantidades de adubação, normalmente com fertilização química, com adubos de síntese e, também, no uso de agrotóxicos. É uma agricultura que tem um controle externo muito poderoso com esses químicos e também é baseada no monocultivo. Portanto, uma agricultura altamente insustentável porque os monocultivos são insustentáveis por definição e, também, se adotou nesse modelo alta mecanização e onde é possível a irrigação. Então, esse é um pacote, digamos assim, da agricultura convencional. A agricultura orgânica, como a gente tem visto, ela tem se baseado principalmente na substituição desses insumos químicos. Então, é uma agricultura que busca eliminar o uso de fertilizantes químicos de síntese e eliminar o uso dos agrotóxicos. Particularmente, esses dois são os elementos-chave que são substituídos na agricultura orgânica. Pela lei, no Brasil, a agricultura orgânica teria que responder uma série de outros quesitos, mas, em geral, os agricultores orgânicos tem se baseado principalmente nesses dois. Já no campo da Agroecologia, o que nós temos é um enfoque completamente diferente. A Agroecologia procura não só esse passo da substituição dos insumos, mas também procura fazer o redesenho dos sistemas agroalimentares, repensar o sistema de produção de modo que a gente possa ter a possibilidade de criar condições de sustentabilidade nas lavouras, nas criações, mas também no sistema agroalimentar como um todo. O sistema agroalimentar, quando me refiro a isso estou falando desde antes da produção, da questão dos insumos, da matéria e energia que entra no processo produtivo até a outra ponta que é o consumo e o descarte, onde nós também temos elementos de sustentabilidade ou de insustentabilidade. E o enfoque agroecológico procura levar em conta não só a dimensão econômica e ecológica da produção, mas também os processos sociais, culturais, o respeito à cultura dos saberes dos agricultores e agricultoras, a dimensão política que é muito importante particularmente sobre as formas de organização social, sobre a participação de agricultores e agricultoras nas definições, nas decisões sobre os desenhos agroecológicos que vão ser feitos e, também, uma dimensão ética que a Agroecologia procura ter sempre presente, porque quando a gente fala de sustentabilidade a gente não pode falar pensando nas gerações atuais, nós temos que pensar sustentabilidade numa perspectiva de futuro, pensando nas futuras gerações e isso seguramente se trata de uma solidariedade inter e intrageracional, que precisa ser levada em conta quando se trabalha no enfoque agroecológico.

Blogs AD e VR - A Agroecologia possui ligações com a Agricultura Biodinâmica? Se possui, quais são elas?

Francisco Roberto Caporal – A Agricultura Biodinâmica é um tipo de agricultura alternativa. Existem várias agriculturas alternativas: a biológica, a permacultura, a orgânica, a natural, etc. Enfim, vários tipos de agriculturas, todas elas buscam mais sustentabilidade nos sistemas de produção. Essas agriculturas alternativas podem ou não adotar os princípios da Agroecologia. Elas podem seguir as suas próprias lógicas, suas próprias normas ou podem avançar no sentido de levar em conta as outras dimensões da Agroecologia que a gente falou antes. Então, tem uma relação sim porque a Agroecologia busca sistemas de produção mais sustentáveis, mas a Agroecologia vai além disso. A Agroecologia estuda, por exemplo, os sistemas agroalimentares desde o ponto de vista do metabolismo social porque é tudo que se refere à entrada, saída e perda de matéria-energia nos sistemas agroalimentares.

Blogs AD e VR - A Agricultura Urbana e a Agricultura Familiar são práticas que se inserem e/ou dialogam com a Agroecologia?

Francisco Roberto Caporal – Sim, desde que elas adotem a perspectiva agroecológica. Nós temos agricultura urbana convencional que adota o pacote convencional da revolução verde: usa fertilizante químico e usa agrotóxico, assim como nós temos a agricultura familiar que também adota o pacote convencional. A grande maioria da agricultura familiar ainda adota o pacote convencional. De toda forma, em ambos os casos, tanto na agricultura urbana quanto na familiar nós temos muitas experiências de processos que vêm adotando o enfoque da Agroecologia. No Brasil, as maiores quantidades de experiências, por exemplo, adotando o enfoque agroecológico está na agricultura familiar. E na agricultura urbana nós temos também muitas experiências tanto no Brasil como fora do Brasil onde é adotado o enfoque agroecológico. Eu me refiro particularmente à experiência cubana de agricultura urbana, que é uma experiência fenomenal, que tem sido elogiada em muitos fóruns. A experiência de Rosário, na Argentina, que é também muito interessante, envolvendo uma quantidade grande de agricultores e agricultoras com apoio da municipalidade, do trabalho de uma ONG importante lá de Rosário. E aqui no Brasil muitas experiências de agricultura urbana com esse enfoque agroecológico, talvez umas das mais expressivas seja no estado de Minas Gerais.

Blogs AD e VR - Fale um pouco sobre possíveis contribuições da Agroecologia para a Economia Solidária.

Francisco Roberto Caporal – Nós, recentemente, fizemos um debate aqui na UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), justamente para identificar os pontos de intersecção que existem entre a Agroecologia e a economia solidária. Nós achamos que, embora sejam campos que trabalham com objetivos diferenciados, a Agroecologia tem muito a contribuir com a economia solidária. A Agroecologia privilegia, por exemplo, a organização social, o apoio à organização social de agricultores e agricultoras e povos tradicionais e, nesse sentido, ela está de mãos dadas com a economia solidária. Ao mesmo tempo, a Agroecologia também privilegia os mercados curtos de comercialização, que também é um campo da economia solidária. Então, acho que são dois campos distintos, mas que caminham com mãos dadas.

Blogs AD e VR - Como o senhor classifica o Programa de Agricultura Familiar implantado pelo Governo Federal?

Francisco Roberto Caporal – O Governo Federal tem um conjunto de políticas, ele não tem exatamente um programa para a agricultura familiar, mas tem um conjunto de políticas direcionadas para a agricultura familiar. Eu diria que talvez a mais importante pela sua expressão, seja o programa de créditos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) que tem uma abrangência grande em todos os estados brasileiros e também alguns programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o programa da merenda escolar, ambos também orientados para a agricultura familiar, exclusivamente para a agricultura familiar de povos tradicionais e que tem dado uma contribuição interessante para o desenvolvimento da agricultura familiar. Não obstante, a nossa avaliação é que nós temos uma grande contradição no governo federal e nos governos em geral, que é apoiar a agricultura familiar, mas colocar recursos majoritariamente para a agricultura patronal, para a grande agricultura dos grandes agronegócios do Brasil. Então, essa é uma grande contradição de quando a gente vai ver o apoio do governo federal para a agricultura como um todo: a agricultura familiar é o primo pobre dessa história. Então, a gente precisaria rever essa política governamental, até porque nós temos no Brasil, hoje, a mais alta concentração da posse da terra entre os países do mundo. E com isso nós estamos deixando de favorecer o setor da agricultura que é a agricultura familiar, que é a agricultura que produz o alimento que nós consumimos. A grande agricultura está voltada para a produção de commodities: produz soja, algodão, milho, laranja, café, cana de açúcar, por exemplo. A maioria desses produtos não são parte da nossa mesa, do nosso cotidiano, da nossa alimentação e dos nossos hábitos alimentares. Então, nesse sentido, essa ação do governo federal com respeito à agricultura familiar carece, em nossa opinião, de um fortalecimento, de mais apoio efetivo por parte dos programas e das políticas.

Blogs AD e VR - Fale um pouco da relação entre a Agroecologia e as dimensões da sustentabilidade.

Francisco Roberto Caporal – Já tinha me referido um pouco antes sobre isso, a sustentabilidade, como eu disse, ela não é uma questão simplesmente ecológica e ambiental. A sustentabilidade tem que ser tratada sob várias dimensões. Tem que ser um enfoque multidimensional para que a gente possa avançar no sentido da sustentabilidade. Inclusive, a sustentabilidade não é uma coisa estática. Nós não chegamos definitivamente à sustentabilidade, até porque que os sistemas vivos são dinâmicos. Então, nós precisamos avançar na direção da sustentabilidade e avançar na direção da sustentabilidade implica várias dimensões. Por um lado, a dimensão ambiental porque é fundamental. Nós precisamos tratar disso, nós temos que reduzir o impacto ao meio ambiente, nós temos que procurar eliminar os processos que geram, por exemplo, os gases de efeito estufa que estão causando o aquecimento global. Nós temos que reservar solo e água para as futuras gerações. Então, esses aspectos ambientais são fundamentais quando a gente trabalha nessa perspectiva. Mas também temos o aspecto econômico, pois nós não podemos trabalhar com agricultores e agricultoras sem uma perspectiva de geração de renda, sem uma perspectiva de soberania e segurança alimentar. Eles precisam produzir tanto para garantir a alimentação das famílias como, obviamente, para gerar uma renda para que eles possam ter acesso a outros bens necessários. Então, a perspectiva econômica é muito importante. Muitas vezes, na agricultura camponesa, a perspectiva econômica não apresenta a mesma lógica da agricultura capitalista, que é ampliar cada vez mais o lucro individual, e sim gerar uma renda suficiente para o bem-estar das famílias, então essa dimensão econômica é muito importante. A sustentabilidade também tem uma dimensão social muito importante, na medida em que nós precisamos trabalhar também na perspectiva da redução da pobreza, de acesso aos alimentos, de uma distribuição mais equitativa dos recursos, dos bens, inclusive da terra. Nós precisamos ter uma distribuição mais equitativa da terra, sendo assim, essas questões sociais fazem parte das dimensões da sustentabilidade. A dimensão cultural também, nós precisamos levar em conta e a Agroecologia trabalha muito com isso porque cada grupo social tem uma história e desenvolveu ao longo dessa história um conjunto de valores e crenças que fazem parte desses elementos de cultura de cada grupo. Então, nós temos grupos sociais como, por exemplo, os Quilombolas que têm um conjunto de valores, de crenças, de hábitos e histórias que são diferentes, por exemplo, dos indígenas, que são diferentes dos agricultores assentados ou dos agricultores tradicionais. Então, cada grupo social tem um conjunto diferente de elementos culturais que precisam ser levados em conta quando a gente trabalha nessa questão da sustentabilidade. Também falei da política, não no sentido partidário, não da política partidária, mas no sentido da participação da sociedade, da possibilidade de uma ação de cada pessoa no desenvolvimento da cidadania, que as pessoas, os agricultores, as agricultoras, os povos tradicionais possam participar das decisões, possam influir nas decisões de políticas públicas que são dirigidas a eles, possam ter acesso a formas de organização social e que possam ter apoio para isso também nas decisões diretas dos seus processos produtivos. Por isso, a Agroecologia privilegia as metodologias participativas: fortalece esses grupos até que permita e que dê o direito das pessoas participarem de todos esses processos de decisão. Então, essa dimensão política é muito importante e, como eu disse antes, tem uma dimensão da sustentabilidade que é essa dimensão ética que tem a ver justamente com a solidariedade entre as gerações atuais e das gerações atuais para com as gerações futuras. Quando eu falo em solidariedade, eu estou falando de coisas práticas, não é de utopia, mas de coisas práticas. Por exemplo, um agricultor que usa veneno na sua lavoura e joga o veneno no rio. Esse veneno vai descer com a água no rio e pessoas abaixo não vão conseguir ter uma água potável, boa de consumo, pode inclusive matar os peixes que serviriam para a alimentação das pessoas abaixo. Então, são coisas práticas que têm a ver com essa solidariedade entre as gerações atuais para com as futuras. Inclusive, a gente faz um debate importante na agronomia ecológica junto com a Agroecologia que é a questão das decisões. As futuras gerações, obviamente, não estão aqui para tomar decisões, então nós não sabemos quanto eles estariam dispostos a pagar hoje para ter uma água potável quando eles estiverem presentes no nosso planeta. Então, essa é uma responsabilidade nossa. Por exemplo, eu dizia outro dia, num debate aqui na UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco), que muita gente, especialmente a classe média e classe alta, de renda alta, que eles se preocupam muito em ter uma boa escola, uma boa educação para os filhos. Empenham-se muito nisso, muita gente faz seguro para os filhos terem mais tranquilidade no futuro, mas a maioria não se preocupa com a questão ambiental. Então do que adianta a gente deixar um filho bem-educado para viver num planeta destruído? Então, a gente tem que juntar essas coisas, essa ética da sustentabilidade é fundamental.

Blogs AD e VR - A concentração de renda e as desigualdades sociais provocam impactos ao manejo agroecológico? Se provocarem, cite os principais.

Francisco Roberto Caporal – Com certeza que toda a diferenciação social, no caso a concentração de renda, leva para isso, leva para essas desigualdades sociais. Elas são prejudiciais não só para o manejo agroecológico, mas para a sustentabilidade como um todo. Por exemplo, se nós queremos um caminho na direção da sustentabilidade, precisamos ter uma distribuição mais igualitária dos recursos. Nesse sentido, por exemplo, a reforma agrária é fundamental, e a Agroecologia se esforça nesse sentido, defende a reforma agrária porque isso vai dar acesso a mais pessoas, mais famílias no processo produtivo e isso também vai distribuir a renda. Quanto maior for a concentração da renda e da riqueza, menos a gente vai ter condição de caminhar na direção da sustentabilidade. Por outro lado, a extrema pobreza no meio rural também é responsável por impactos ambientais. Então nós temos dois extremos: a extrema pobreza que pode causar impactos ambientais como, por exemplo, o desmatamento. Nós temos comunidades pobres no meio rural que a renda vem da produção de carvão e, aqui, na nossa realidade, muitas vezes destruindo a caatinga para produzir carvão que é a única forma de gerar renda. Então, com certeza, a concentração da renda, da riqueza e dos recursos e as desigualdades sociais causam sim problemas para a sustentabilidade.

Blogs AD e VR - A prática agroecológica pode aumentar a autoestima das comunidades rurais e contribuir para a preservação do patrimônio cultural rural? Dentro de sua vivência, poderia dar exemplos?

Francisco Roberto Caporal – Sim, minha resposta é positiva porque todas as ações que levam em conta, que são desenvolvidas, tendo em conta o enfoque agroecológico, têm demonstrado que, ao favorecer o desenvolvimento de processos mais sustentáveis e menos agressivos ao meio ambiente, permitem inclusão das pessoas, contribuem para a cidadania desses grupos sociais e isso tem mostrado o aumento da autoestima desses grupos sociais. Tem agricultores e agricultoras jovens que têm orgulho de dizer que eles estão participando dessas transformações na nossa sociedade, que eles produzem alimentos sadios. Ficam muito orgulhosos de poder levar para a feira os seus produtos e mostrar: “-Olha, eu estou produzindo um alimento sadio, eu não estou agredindo o meio ambiente e eu estou contribuindo inclusive para a saúde dos consumidores”. Então, eles têm orgulho sim e a adoção do enfoque agroecológico tem mostrado a possibilidade de aumento da autoestima. Também tem contribuído para a preservação do patrimônio cultural. Na medida em que a Agroecologia tem como elemento central partir sempre da realidade local e do conhecimento local, dos saberes locais, isso contribui muito não só para a preservação como para o resgate desses conhecimentos culturais desenvolvidos ao logo da história destes distintos grupos sociais. Então, tem um papel importante sim e, da nossa vivência, o que eu posso dizer são as experiências que nós temos tido: vários grupos sociais como indígenas e quilombolas que têm se empenhado a partir desse debate, mulheres rurais têm feito isso muito, os grupos localizados de mulheres rurais, jovens rurais, estão fazendo o resgate da cultura local, do conhecimento local, do conhecimento histórico que tem sido a base para essas transformações a partir do enfoque agroecológico.

Blogs AD e VR - A Dinamarca adotou legalmente a Agricultura Biológica, quais os benefícios desta postura para um país?

Francisco Roberto Caporal – Essa é uma experiência importante que está acontecendo na Dinamarca. Eles têm como meta ter toda a agricultura como biológica, lá eles chamam de biológica. Na Europa, em geral, chamam de ecológica. Mas, o que é importante é que o governo tomou uma decisão. É uma decisão de governo fazer a transição de toda a agricultura dinamarquesa para a agricultura biológica. Isso é muito importante, porque nós vamos ter acumulado grandes resultados em termos de preservação ambiental e, por outro lado, uma população que vai ter uma alimentação sadia. Isso, do ponto de vista socioambiental é fundamental! Outros países já estão seguindo este mesmo caminho e, lamentavelmente, esse não é o caso do Brasil. O programa de Agroecologia que nós temos no Brasil, que envolve a Agroecologia e a produção orgânica, ele é bastante restrito.

Blogs AD e VR - O senhor acredita que a legislação brasileira a respeito dos alimentos orgânicos complica o entendimento sobre a Agroecologia?

Francisco Roberto Caporal – Em minha opinião sim. Complica porque a nossa lei de orgânicos, quando define o que é alimento orgânico, ela coloca praticamente tudo, inclusive o extrativismo é produção orgânica pela nossa lei. E ela coloca lá na definição “agricultura agroecológica”, só que, na lei, não define o que é essa “agricultura agroecológica”. Então fica tudo junto: agricultura orgânica e agroecológica. Isso dificulta o entendimento, tanto dificulta o entendimento que a Política Nacional de Agroecologia e Agricultura Orgânica, acabou tendo o enfoque muito mais para o apoio à agricultura orgânica do que de fato para um processo de transição agroecológica. Tem uma agricultura da grande produção que chamam de agronegócio que pode continuar poluindo a vontade, contaminando a vontade. Inclusive contaminando rios, destruindo o meio ambiente e fazendo desmatamento. Uma política que é voltada só para a agricultura familiar. Então, é uma grande contradição que temos nesse sentido em termos da legislação brasileira.

Blogs AD e VR - Neste sentido, o senhor acha que a Agricultura Orgânica e a Agroecológica podem fazer parte de um mesmo texto legal?

Francisco Roberto Caporal – Não, não podem. Em minha opinião não podem até porque a agricultura orgânica tem uma lei específica que determina o que é a agricultura orgânica para o Brasil. O enfoque agroecológico ele não segue lei, digamos um dispositivo legal. Ele segue um conjunto de princípios na busca de mais sustentabilidade no sistema agroalimentar. Então não dá para a gente misturar porque são coisas completamente diferentes. O enfoque agroecológico, por exemplo, não pressupõe um modelo de agricultura. Nós não trabalhamos com a ideia de um modelo de agricultura porque vamos ter tantos tipos de agricultura a partir do enfoque agroecológico quantos forem os diferentes agroecossistemas que vamos trabalhar. Eles não são iguais e, também, não são iguais os valores e os elementos de cultura dos grupos sociais que manejam esses agroecossistemas. Então, esse aí é um grande desafio para os agroecólogos e tem dificultado muito para os que estão chegando, digamos assim, junto à Agroecologia, no enfoque agroecológico justamente por isso: não existe um pacote tecnológico da Agroecologia como existe um pacote tecnológico da agricultura orgânica. No enfoque agroecológico, nós temos que trabalhar com princípios: princípios ecológicos, princípios de natureza social, princípios de natureza cultural, levando em conta a questão econômica, que vão orientar os diferentes tipos de manejos dos processos produtivos e dos sistemas agroalimentares que a gente trabalha.

Blogs AD e VR - Qual sua opinião sobre os serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) oferecidos pelo poder público no Brasil?

Francisco Roberto Caporal – Eu tenho trabalhado quase toda a minha vida em assistência técnica e extensão rural, tenho procurado seguir os debates sobre esse tema e acho que nós tivemos algumas inflexões ao longo do tempo. Nós tivemos um abandono da extensão rural por parte do governo federal em 1990. Até então, a extensão rural trabalhava particularmente numa linha de difusão das tecnologias da revolução verde. Depois, nós tivemos uma retomada com uma nova política de extensão rural construída em 2003 que já vinha em outra dimensão, pois procurava trabalhar numa perspectiva agroecológica com foco na agricultura familiar e no desenvolvimento rural sustentável. E tivemos outra inflexão no ano de 2010 quando o governo federal promulgou uma lei de assistência técnica e extensão rural retirando alguns elementos da política de 2003, mas procurando manter outros princípios dessa política. Eu acho que a assistência técnica e extensão rural no Brasil é bastante carente no ponto de vista da oferta dos serviços para os agricultores. Os recursos do governo federal, embora tenham aumentado substancialmente, são ainda insuficientes para atender a demanda que existe na agricultura familiar. Os governos dos estados, por sua vez, e do Distrito Federal, têm aportado poucos recursos para a extensão rural. Recursos dos estados dependem muito do governo federal. Então, se os recursos do governo federal são poucos e os estados apoiam pouco, a gente já tem um quadro de uma carência elevadíssima. Nós tivemos, recentemente, um estudo feito aqui nos estados da Paraíba e de Alagoas por duas estudantes aqui do mestrado em extensão rural da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco). Em ambos os casos, elas mostraram uma absoluta deficiência dos serviços de assistência técnica para atender as demandas dos agricultores e, também, uma enorme descontinuidade dos serviços de extensão rural pela forma operacional desses serviços. Então, essa é a minha opinião: eu acho que a extensão rural, no Brasil, precisa melhorar, e muito.

Blogs AD e VR - Considerando uma reformulação conceitual nos serviços de ATER, qual tipo de público deveria ser abrangido: pequeno, médio ou grande produtor rural?

Francisco Roberto Caporal – A nossa lei de extensão rural, conhecida como lei de ATER, a Lei 12.188 de 2010, diz que todo o serviço de extensão rural, financiado com o apoio do governo federal, deve ser exclusivo para a agricultura familiar e para os povos tradicionais: indígenas, quilombolas, ribeirinhos, etc. Então, nós já temos uma definição legal. Na minha opinião isso está correto num país que carece de recursos para serviços de extensão rural. É positivo que a gente tenha uma discriminação no sentido de favorecer a agricultura familiar porque são, de fato, os que mais precisam do apoio dos serviços de ATER. Os grandes produtores ou eles já têm sua própria assessoria técnica, ou recebem assessoria técnica das grandes empresas que vendem os insumos e as máquinas para eles, ou eles podem pagar por esses serviços. Então, eu acho que o foco da política nacional de assistência técnica e extensão rural das ações, tanto do governo federal como dos estados e municípios, devem ser na oferta de serviços para agricultores familiares e povos tradicionais.

Blogs AD e VR - Em quais bases o senhor acredita que deveria se pautar a reforma agrária brasileira? Ela está acontecendo de fato?

Francisco Roberto Caporal – A maioria dos estudiosos sobre o tema da questão agrária, dizem que nós, no Brasil, nunca tivemos reforma agrária e eu concordo com essa opinião. Nós nunca tivemos reforma agrária, pois todos os nossos planos nacionais de reforma agrária fracassaram, todos eles, desde o início, desde o primeiro Plano Nacional da Reforma Agrária (PNRA). E nós temos tido nos últimos tempos uma paralisia inclusive dos processos de assentamento, que é uma reforma agrária pontual, digamos assim. Esse processo atual não é um programa de reforma agrária, mas a compra de terra para o acesso de alguns agricultores que vão ser assentados. Então, essa é a minha opinião: nós não temos reforma agrária. Eu acho que a reforma agrária é uma coisa fundamental para um país como o nosso que tem a maior concentração de terras do mundo. Entretanto, eu creio que nós precisaríamos fazer uma revisão no método, nas formas de assentamento e nas próprias políticas de apoio aos assentados. Em geral, nós temos uma reforma agrária que está alicerçada sobre a divisão de áreas de lotes para os agricultores e as famílias que vão ser assentadas. Isso aí muitas vezes prejudica inclusive a possibilidade de um desenho mais adequado desses sistemas agroalimentares e de processos de produção mais adequados do ponto de vista da sustentabilidade. Além disso, esses processos não têm contribuído para a organização social dos assentados. Por outro lado, as políticas de apoio são extremamente lentas, lerdas e burocráticas, o que dificulta muito o acesso das famílias às políticas que são desenvolvidas pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Então, a própria política dentro do convencional que parte da divisão de lotes, tarda muito tempo e, não havendo sido distribuídos os lotes, as outras políticas não chegam. Então, temos aí um problema sério. Eu acho que nós teríamos que rever primeiro isso aí: pensar em assentamentos de forma mais coletiva. Se não totalmente coletiva, mas de formas mais coletivas onde a gente pudesse pensar o uso da terra a partir de um desenho do agroecossistema na perspectiva da sustentabilidade. Pensar em áreas comuns: áreas comuns de manejo, por exemplo, áreas florestadas, as águas, tem tudo que ser pensado em formas coletivas. Não dá para pensar esses recursos de forma individual. Então, eu acho que tem que fazer uma mudança grande na metodologia, na estratégia e, de fato, fazer reforma agrária nesse país. Esse país tem que ter reforma agrária.

Blogs AD e VR - Se o senhor fosse convidado a opinar na construção de um plano nacional para a potencialização da produção de alimentos livres de agrotóxicos, que tipo de ação o senhor proporia como prioritária?

Francisco Roberto Caporal – A primeira delas é que as políticas públicas dos governos Federal, Estadual e Municipal não estimulassem o uso de agrotóxicos. Esse é o primeiro ponto porque, de fato, hoje, as políticas públicas estimulam. O próprio crédito para a agricultura, tanto patronal como familiar, estimula o uso de agrotóxicos. Então, a gente precisa começar por aí. As políticas para a agricultura, tanto patronal como familiar, não podem estimular o uso de agrotóxicos. Outro elemento fundamental é a formação dos profissionais. Ocorre que continuamos ensinando nas universidades e, aqui na UFRPE não é diferente, a gente continua ensinando os profissionais das ciências agrárias, particularmente os agrônomos, a adoção do pacote tecnológico. Eles aprendem muito sobre veneno e nós continuamos usando veneno nas áreas do campus das universidades. Então, que exemplo a gente pode dar para uma agricultura sem veneno quando na própria universidade a gente continua usando veneno? Esse é um elemento. Então, um terceiro elemento que é fundamental para os leitores terem uma ideia: o Brasil é um dos países que menos cobra impostos sobre agrotóxicos. Eles são isentos de vários impostos federais e, inclusive, em muitos estados têm impostos estaduais. Tem estados no Brasil que agrotóxico não paga nada de imposto. Isso é incrível, né? A indústria não paga, o comércio não paga, o usuário não paga, o vendedor da loja não paga, ninguém paga o imposto em alguns estados do Brasil. Isso é um enorme estímulo para o uso de agrotóxicos. Então, a gente paga imposto para comer feijão, mas não paga para envenenar comida, envenenar o meio ambiente, contaminar as águas e assim por diante. Esse é um outro elemento: nós teríamos que ter pesados impostos sobre os agrotóxicos e também teríamos que ter uma política de punição severa daqueles que contaminam o solo e contaminam a água. Nós temos hoje contaminação por agrotóxicos no Aquífero Guarani que é um patrimônio nosso e das futuras gerações. Esse aquífero é nosso maior reservatório de água subterrânea e de parte da América latina, particularmente da Argentina e Uruguai. Então, tem que ter uma lei que puna, pesadamente, as pessoas que contaminam com agrotóxicos, que também vai desestimular o seu uso. Elementos como esse poderiam ajudar e, no outro lado, grande apoio aos agricultores que não usem agrotóxicos. Privilegiar os agricultores que não usem agrotóxicos que estão promovendo um serviço ambiental importante. Então, a nossa lei de serviços ambientais deveria contemplar um benefício para os agricultores que não usem agrotóxicos, inclusive com o apoio financeiro para que se estimule o não uso de agrotóxicos. Esses são alguns dos elementos que seriam importantes dentro dessa perspectiva.

As próximas perguntas foram enviadas por Profissionais das Ciências Agrárias e apresentadas ao Professor Caporal, o qual prontamente aceitou respondê-las, seguem:

Valdir Junior (Jales/SP) - A produção de alimentos agroecológicos requer mais investimento, o que torna o produto mais caro. Em um mundo tão capitalista (no qual os consumidores esperam um produto barato, acessível e nutritivo), além do custo, quais seriam os maiores problemas a serem avaliados?

Francisco Roberto Caporal – Em primeiro lugar, eu não concordo com essa ideia de que a produção com enfoque agroecológico, mesmo a produção orgânica, mais tradicional de substituição de insumos, seja necessariamente de maior custo, que produz alimentos mais caros. Nós temos exemplos: muitos exemplos de agricultores que fizeram o processo de transição agroecológica, reduziram os custos de produção e produzem a preços mais baixos que a agricultura convencional. Então, essa é a primeira questão: essa é uma falsa colocação e que tem sido usada desde o início e, que ela tem uma razão, a gente pode compreendê-la, embora não aceitando essa ideia. Em muitos casos de conversão para a agricultura orgânica, os assessores técnicos, particularmente, disseram aos agricultores, orientaram os agricultores de que eles poderiam vender os produtos com um preço mais elevado num mercado de nicho, ou seja, num mercado para aqueles que se dispõem a pagar um preço mais elevado. Isso é assim em muitos países. É assim na Europa, é assim nos Estados Unidos e acabou passando a ser quase que uma tradição aqui no Brasil. Entretanto, nós não temos necessariamente uma agricultura mais cara. Os elementos que mais dificultariam nossa agricultura do ponto de vista do custo é justamente o problema da mão de obra. Para se construir um processo de transição agroecológica, na perspectiva do redesenho dos sistemas de produção na busca de mais sustentabilidade, é necessária mais mão de obra que a agricultura convencional. Em geral, onde nós não temos uma agricultura familiar consolidada, o problema da mão de obra pode-se constituir num problema para o avanço da produção orgânica ou ecológica, como se queira.

Wallysson Lima (Imperatriz/MA) – A Agroecologia conseguiria suprir as necessidades da população mundial? E quais as possibilidades de um dia esse tipo de alimento se tornar acessível a todos, uma vez que esse tipo de alimento é caro, devido ao custo de produção?

Francisco Roberto Caporal – Outra vez essa questão do alimento caro. Nós precisamos desmistificar isso, nós temos que mostrar, temos que ver que muitos agricultores estão vendendo seus produtos ecológicos, orgânicos a preços iguais ou inferiores aos convencionais e isso é possível desde que a gente não esteja com a estratégia focada em nichos de mercado. Se a gente for aqui, na feira que os agricultores que são assistidos pelo Núcleo de Agroecologia e Campesinato (NAC/UFRPE), pelo Professor Jorge Matos, que tem uma feira em frente à universidade, eles vendem os produtos com preços mais baixos que os produtos convencionais. Então, isso é possível. Com relação à Agroecologia suprir as necessidades da população mundial, nós temos hoje recomendações, por exemplo, do Dr. Oliver De Schutter da Organização das Nações Unidas (ONU), que foi o relator especial para a segurança alimentar. Ele recomendou que os governos destinassem todos os recursos de subsídios que aplicam hoje nas agriculturas convencionais para agriculturas com base no enfoque agroecológico para justamente apoiar esse processo de transição. Porque ele, no informe que faz (esse informe foi apresentado na assembleia da ONU), ele diz que é possível garantir a segurança alimentar inclusive do ponto de vista da qualidade dos alimentos e do ponto de vista nutricional, adotando-se o enfoque agroecológico na agricultura em geral. Então, é possível sim e, inclusive, quando a gente trabalha no enfoque agroecológico, uma das nossas utopias é que no limite, a ideia é que a gente tenha todas as agriculturas com base no enfoque agroecológico, esse é o nosso limite da utopia. Caminhar nesse sentido, isso aí garantiria que todos tivessem acesso aos alimentos. E por suposto, que é fundamental, que a gente tenha políticas publicas de apoio a esse processo de transição.

Fabio Lúcio Martins Neto (Viçosa/MG) - Como aumentar o consumo de produtos agroecológicos? Como aumentar a disponibilidade de "insumos agroecológicos" para a transição agroecológica?

Francisco Roberto Caporal – A pergunta do Fábio é muito interessante porque, de fato, quando a gente foca exclusivamente num processo de substituição de insumos, a gente começa a se deparar com essa carência de insumos para substituir os insumos tradicionais. A primeira grande questão diz respeito à qualidade do solo. Como é que a gente melhora a qualidade do solo quando a gente tira o fertilizante químico? Nós temos que trabalhar na melhoria da qualidade do solo e aí nós temos que ver as estratégias locais possíveis: seja o uso de esterco, seja a produção de composto, o uso de plantas melhoradoras do solo. Nós temos leguminosas adaptadas em todo o território nacional para a gente fazer isso: o uso de plantas melhoradoras do solo. Enfim, nós temos que buscar essas alternativas e, também, podemos utilizar enquanto esses insumos não chegam e, quando eles chegarem, vão ser muito caros. Até porque, hoje, as grandes transnacionais de agroquímicos já estão se dedicando à produção de insumos orgânicos. Então, nós poderemos cair, de novo, nas mãos das grandes transnacionais de agroquímicos dentro dessa perspectiva de “esverdeamento” que eles estão adotando. Outra questão que é importante é que a gente procure produzir os nossos insumos, assim como para o melhoramento do solo. Eu citei alguns exemplos, mas nós podemos fazer outras coisas, podemos produzir biofertilizantes na propriedade. Nós podemos produzir diferentes caldas quando for necessário o uso como, por exemplo, para controle de insetos, pragas e fungos. Há uma série de caldas possíveis para utilizarmos. Então, eu acho que a gente não pode se fixar nessa ideia de simplesmente substituir insumos industriais químicos por insumos industriais orgânicos. Se pensarmos assim, isso vai limitar muito o processo de transição agroecológica. Até porque, se focarmos nisso e, com o preço dos insumos orgânicos crescendo, principalmente se ficarmos nas mãos das multinacionais, vai ser seguramente caro, cotado em dólar inclusive e aí os agricultores familiares vão ficar fora desse processo. Então, além disso, nós temos observado algumas experiências, por exemplo, vários estudos na Europa estão mostrando o que os autores chamam de “convencionalização” da agricultura ecológica. Isso quer dizer que basta simplesmente se basear em insumos industriais. Então, tira os insumos químicos e pega insumos industriais orgânicos (lá eles chamam de ecológicos). Isso aí é outro problema sério porque nós vamos enfrentar além da questão do custo, a dependência do sistema agroindustrial de poucas grandes transnacionais. Além disso, nós vamos ter um problema sério que é o processo de certificação porque os insumos adotados na agricultura ecológica têm que ser certificados também como ecológicos. Então, nós vamos criando uma cadeia de custo de produção que vai tornar, de fato, o produto inacessível para pelo menos a grande maioria da população.

Peterson dos Santos (Ouro Preto/MG) - Gostaria de saber qual é o mercado de trabalho para os profissionais que atuam na vertente agroecológica.

Francisco Roberto Caporal – Eu acho que os profissionais que estão se formando no campo da Agroecologia, tanto na educação formal como na educação não formal, eles têm muitos espaços de trabalho. Por exemplo, nós temos aí uma quantidade enorme de cursos de Agroecologia no Brasil. Temos em torno de 80 cursos de Agroecologia no Brasil. Então é um espaço para professores nesse campo da Agroecologia. O serviço de extensão rural tem aberto muitos editais para trabalhar no enfoque agroecológico. Então tem um espaço grande na extensão rural brasileira para trabalhar com esse enfoque. Na pesquisa, a própria Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) já desenvolveu linhas de pesquisas e organizações estaduais também de pesquisa, criaram linhas de pesquisa em Agroecologia ou na transição agroecológica. Então está se abrindo um espaço importante também na pesquisa. Enfim, nós temos inúmeros institutos federais que estão contratando pessoal para esse campo. Então é um campo aberto para os profissionais se engajarem na Agroecologia.

Gustavo Castelo Branco (Palmas/TO) - Sou bananicultor e minha produção é convencional com uso de agrotóxicos. Gostaria muito de produzir dentro dos conceitos da produção orgânica, mas não tenho segurança do ponto de vista técnico devido à ocorrência de algumas doenças muito severas que podem dizimar o bananal como a Sigatoka negra, por exemplo. Eu produzo banana prata, a qual é amplamente consumida no Brasil, porém, é suscetível a doença enquanto outras variedades, que são resistentes, não têm boa aceitação no mercado. Tenho duas questões: Como podemos ensinar o mercado a consumir variedades de frutas menos conhecidas que são resistentes a doença e não necessitam de fungicidas? E segundo: esta questão está sendo tratada com a devida importância nos programas de melhoramento genético?

Francisco Roberto Caporal –  A Pergunta do Gustavo é muito interessante e muito pertinente porque primeiro coloca a importância da segurança técnica. Eu acho que, de fato, para a gente fazer uma transição (no caso ele quer fazer uma produção orgânica), fazer uma conversão da agricultura tradicional para a orgânica, nós precisamos ter em conta diversos elementos e um deles é exatamente a variedade. Dificilmente, nós vamos conseguir uma lavoura totalmente sadia se a gente fizer grandes monocultivos, ou seja, é muito difícil que a gente consiga uma estabilidade ecológica em grandes monocultivos. Então começaria por aí: tem que haver um redesenho do processo de produção, o redesenho do agroecossistema. Isso aí, para grandes produtores, por exemplo, cria uma dificuldade importante. Eu não sei qual o tamanho da plantação do Gustavo, mas essa é uma questão importante. As duas questões que ele coloca, então, nesse primeiro ponto eu diria: uma das primeiras coisas que é importante fazermos é conhecer experiências de agricultura orgânica, no caso dele, com outros bananicultores. Nós temos experiências importantes em São Paulo de produção orgânica de banana e no sul do Brasil também. Então, ele precisa fazer um intercâmbio com esses colegas agricultores que estão fazendo produção orgânica de banana. Esse seria um ponto importante e, também, conversar com técnicos que estão assessorando esses agricultores. Com relação às questões que ele coloca para ensinar o mercado a consumir variedades de frutas menos conhecidas que são resistentes a doença, que não necessitam do uso de fungicidas, essa é uma questão que nós precisamos ainda continuar trabalhando muito porque alguns consumidores, em geral, foram estimulados a ter todos os produtos que eles querem comer a qualquer hora no mercado e agricultura não é assim. A agricultura é sazonal. Nós temos épocas que nós temos determinados produtos e outras épocas que estes produtos não são produzidos e para a gente produzi-los o ano todo, a gente tem que artificializar os sistemas senão a gente não consegue. Então, nós precisamos muito trabalhar nesse sentido: sensibilizar o consumidor da importância de comer os alimentos produzidos na época e não esperar comer todos os alimentos que ele quer em todas as épocas do ano. Isso está sendo feito muito pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e nos conselhos regionais estaduais de segurança alimentar, ou seja, estimulando os consumidores para que modifiquem seus hábitos alimentares nesse sentido. E a segunda questão que ele coloca, eu acho que nós temos muitos exemplos de trabalhos importantes nesse campo na EMBRAPA e, também, em muitos estados que estão dedicando esforços no melhoramento genético inclusive da bananicultura que poderia ajudar bastante os agricultores nesse sentido: de eliminar o uso de determinados insumos químicos para o controle de algumas doenças, que esse potencial genético dos cultivos ajudaria também a controlar.